A VIDA NUM CEMITÉRIO


Texto extraido do livro sob os Olhos da Clarividente



A VIDA NUM CEMITÉRIO

         - Duas coisas, Neiva, sobre as quais pedirei mais esclarecimentos: essa questão dos suicidas e o que se passa nos cemitérios. No caso dos suicidas, tenho um pouco de preocupação com aqueles que nos vão ler. Você não acha que, se justificarmos o suicídio, podemos dar motivos para que as pessoas que antes vacilavam, o façam por isso?
- Não, Mário, isso não me preocupa nem um pouco. Nas estórias que estamos relatando, estamos frisando muito bem os aspectos positivos da vida e abrindo possibilidades a todos, mesmo que não aceitem nossa Doutrina. As pessoas que lerem os casos que estamos contando verão que o verdadeiro suicídio é a morte planejada, deliberada. Se uma pessoa é consciente das implicações da vida cármica e, assim mesmo, se mata, esse é, realmente, um suicida. O que vai se apresentar a ele, depois disso, é a mesma situação que deixou na vida, porém, com muito mais complicações. Definitivamente, não paga a pena suicidar-se. Mas, o que me preocupa, realmente, nesse assunto, é a atitude dos vivos com relação aos suicidas, ou como tal considerados. Isso porque o espírito, após o desencarne, depende muito dos que ficam. Se as idéias e conceitos que fazemos do morto forem positivas, ou, pelo menos, isentos de julgamento, ele se despreocupa muito mais dos que aqui deixou e pode seguir seu destino com maior tranqüilidade. Isso sem falar na questão ectoplasmática, tão preciosa para o recém desencarnado.
- É, isso faz sentido. E quanto aos cemitérios? Tradicionalmente a gente considera o cemitério como um lugar de paz, de tranqüilidade. Ele é assim, realmente?
- Não! A paz que ali existe é somente física, pois os defuntos são, apenas, matéria em decomposição, e nada podem fazer fisicamente. Mas, em contrapartida, na parte psico-espiritual, a coisa é bem diferente. Deixe-me contar um caso que irá elucidar bem as duas questões. Certa vez fui procurada por um senhor, de nome Marcondes, que soubera a meu respeito por intermédio de um deputado federal. Marcondes morava em São Paulo, e pertencia a tradicional família católica, sendo membro ativo da Confraria Vicentina. O motivo de sua visita eram conflitos conjugais e problemas comerciais. Sua situação era a pior possível. Em sua vida conjugal, havia sério problema pela interferência de um seu secretário, chamado Waldo, aparentado de sua esposa. Registrei o nome dela – Armanda – e de uma filha de 17 anos. De pronto, verifiquei que a base do desajuste era a presença de Waldo e um carma complexo de toda a família. Vi, também, que a alimentação mediúnica do conflito se processava, principalmente, através de Marcondes.
- Mas, Neiva – interrompi – mediunidade num católico praticante?
- Sim, Mário, você não está sempre afirmando que a mediunidade independe da situação da pessoa?
- Bem, é lógico... Apenas estranhei um pouco, porque os católicos têm uma posição bem definida de antagonismo ao Espiritismo.
- Ao Espiritismo, Mário, mas não ao Mediunismo. A idéia do médium, isto é, do intermediário, também é fundamental no Catolicismo, só que é apresentada de outras formas. Bem, não quero me aprofundar nessa análise, em face do respeito que tenho, não só pelos católicos, mas por todas as religiões, e não nos compete julgar qualquer outra linha ou credo. Mas, o caso de Marcondes estava nítido. Cumpridor de seus deveres religiosos, desde mocinho destacou-se como congregado mariano e, na prática constante de sua doutrina, desenvolveu sua mediunidade. Sempre procurando respeitar sua posição, com muito custo consegui equilibrar seu quadro familiar e sua posição comercial. Pedi que ele trouxesse Waldo até Brasília, e esclareci os dois sobre a situação. Com isso, pude retirar a possessão que existia, e ambos se foram em paz. Depois disso, periodicamente, eu recebia algumas flores, com um cartãozinho de um deles, me cumprimentando. Depois de um ano desse contato com eles, cessaram as flores e as notícias.
         - E você não ficou preocupada, não se agastou com isso?
         - Não. Já estou acostumada com isso. Como disse Chico Xavier, sou apenas um burrinho que transporta o Bem e recebe más notícias. O fato é que não recebi mais qualquer notícia deles. Algum tempo depois, Pai João me convocou para ver um “tutelado” meu. É a forma como ele se refere aos nossos clientes. Desprendi-me do corpo e tratei de acompanhá-lo. Eram cerca de três horas da madrugada quando chegamos a um lindo cemitério, cheio de capelas e estátuas ornamentais. Senti medo, e fiz menção de retornar ao meu corpo. Pai João me segurou e me repreendeu, dizendo: “Filha, filha, tenha cuidado e contenha-se. Lembre-se de que o seu amor fraternal a sustenta e a livra de qualquer mal! Não se esqueça de que o medo é um grande mal...” Nisso, surgiu um homem muito alto, vestido de preto e com uma camisa muito branca. Dei um grito, assustada, pois o semblante do homem denotava, claramente, que ele havia saído de uma cova. Pai João sorriu e me segurou, dizendo: “Filha, este cemitério é em São Paulo, e aqui estão enterrados defuntos que pertenciam a diversas religiões.” Não entendi bem porque aquela referência às religiões. Mais calma, fiquei observando o homem de preto. Ele gesticulava, como se estivesse falando em um comício, e seu tom era de protesto e indignação, como se não soubesse o que estava fazendo ali. Outros espíritos se reuniram e a impressão que eu tinha era mesmo de um comício. Em dado momento, o homem de preto se calou, e um outro homem se destacou pelos gritos que dava, invocando Nossa Senhora da Conceição e invectivando uma figura encapuçada, que percebi ser um frade, que se encolhia todo ao ouvir as coisas que lhe eram ditas pelo tal homem. Admirada pela cena, chamei a atenção de Pai João: “Olha, Pai João, veja como ele chama por Nossa Senhora! E aquele frade? Pobre homem. Tão simples, um sacerdote, recebendo uma humilhação como essa!
         - É verdade, minha filha, esse frade é um grande espírito. Aliás, um sacerdote é, sempre, um grande espírito. Feliz do homem que se desprende dos bens materiais para se dedicar a uma missão. Quando à invocação de Nossa Senhora é perfeitamente natural, de acordo com a crença desse homem. E pode ter certeza, minha filha, de que ele será atendido na sua invocação.
         - E por que, Pai João, esse homem está com tanta raiva do frade?
         - Eles estão num reajuste, minha filha, reajuste esse que não foi feito quando ambos estavam encarnados. O homem que está gritando com o frade é um suicida. Era um político de muito destaque, e esse frade era seu filho. Seu sonho de político era o de que seu filho seguisse a mesma carreira. Mas não soube conduzi-lo e, em certo momento, o rapaz abandonou a família e se recolheu a um convento. A frustração do pai foi muito grande, e a isso se somaram outros desgostos, que levaram o político ao suicídio. Apesar do gesto dramático, ele não morreu na hora. O filho, já um sacerdote, foi para a cabeceira do pai e, contrariando as normas de sua religião, deu a absolvição, a extrema unção ao pai.
         - Mas não podia, Pai João? Por que um filho não pode dar absolvição a um pai?
         - Nesse caso, não, minha filha, porque ele era um suicida comprovado e a Igreja não permite a ministração de sacramentos a pessoas que se suicidam, nem mesmo seu enterro num cemitério consagrado.
         - Mas, Pai João, – objetei – como um espírito, que vem para se reajustar na Terra, como no caso presente, com seu próprio pai, abandona a família e, portanto, a sua obrigação cármica, o seu reajuste, se refugia num convento e, ainda assim, pode ter a santidade para dar uma absolvição?
         - Sim, minha filha, não se esqueça de que o ritual de um sacerdote, que tem uma missão de amor, e coloca sua missão acima de seus interesses pessoais, é sempre ouvido pelos santos e anjos, seus protetores. Assim são chamadas as falanges que guarnecem as igrejas católicas. Mas, o nosso frade cometeu um erro, na qualidade de sacerdote: nem ao próprio pai ele poderia absolver como o fez. Por essa razão, ele teve que pagar por esse erro e é por isso que ele está cumprindo seu tempo junto ao seu pai, não só pelo erro cometido como pelo reajuste que não fez.
         - Mas, então, Pai João, a boa intenção dele de nada lhe serviu? Se ele foi um bom sacerdote, cumpridor de seus deveres, só porque desobedeceu a um preceito, só por isso, ele não foi para o Céu, como acreditam os católicos?
         - Sim, Neiva, um sacerdote tem a situação parecida com a do Doutrinador em nossa Ordem. Se um Doutrinador cometer um erro num trabalho mediúnico, ele arca com as conseqüências, principalmente com relação aos obsessores. Um sacerdote da Igreja Católica é um Doutrinador, com grandes poderes intelectuais, e, quando é um bom missionário, ele se torna um verdadeiro espírito de Luz. Na verdade, todos os sacerdotes têm alguma santidade, mesmo os profissionais.
         - Profissionais? Como, Pai João?
         - Profissionais do sacerdócio são sacerdotes por carreira, não missionários. São os que contribuem para a queda das igrejas, embora tenham sua razão de ser, sua função.
         - Função, Pai João?
         - Sim, filha, função, finalidade. Tudo e todos têm alguma finalidade. Por exemplo, filha, o chamado baixo espiritismo, com suas práticas mediúnicas anímicas, tem a função importante de escada de acesso para os espíritos de condições evolutivas inferiores. Todos são instrumentos e recebem as bênçãos de Deus, mas todos têm sua responsabilidade proporcional aos graus de evolução que possuem. Veja o caso do Mário. Ele é um Doutrinador que já fez as mais lindas doutrinas, curas e desobsessões e, certa vez, porém, por conveniência pessoal, ele admitiu a mistificação de um médium, que era um aparelho positivo, e, por isso, está arcando com as mais tristes conseqüências.
- Qual foi esse caso, Pai João?
- Foi o caso de um casal, o marido Doutrinador e a esposa médium incorporadora. Num dado momento, ela começou a profetizar e o Mário, em vez de cumprir seu dever de Doutrinador, permitiu que ela continuasse profetizando, deixando o esposo na crença de que se tratava de comunicações positivas. O resultado foi o mais triste e, agora, o Mário arca com o ônus do erro cometido. A médium exerce, sobre ele, terrível possessão, e até que se esgotem as energias negativas desse ato, ele terá que sofrer!
- Neiva, Neiva! – interrompi – Quer dizer que estou colocado na mesma posição do frade da estória que estamos contando?
Ela sorriu e não me respondeu. Voltei a falar:
- É melhor voltarmos ao cemitério!... Sobre o frade e seu pai, não entendi bem a posição dos dois. Eles haviam se perdido um do outro? Pelo que entendi, o fato se passou em tempos bem distantes. O homem, o suicida que você estava conhecendo, era bem mais moço do que o frade, seu filho. Explique melhor isso, Neiva.
- Para se compreender essa situação, é preciso admitir que as coisas no plano espiritual são mais complexas e difíceis de entender com os sentidos ou com a razão. Para começar, os dois estavam em planos completamente diferentes. O plano do frade era muito mais alto do que o do seu pai suicida.
- Mas, Neiva, se os planos deles eram diferentes, como é que estavam naquela posição? O padre não deveria estar numa outra situação?
- E estava! Cada um pertencia a um plano, e os dois apenas se achavam no mesmo local. Entenda bem: planos diferentes e o mesmo local. O frade conhecia seu pai, sabia da sua dor e da sua revolta, e era obrigado a permanecer junto a ele até conseguir liberá-lo. No fundo, estava apenas arcando com as conseqüências dos dois erros cometidos. Primeiro, por ter absolvido os pecados de um suicida, erro cometido contra o ritual da sua igreja, pelo qual respondia individualmente, na qualidade de sacerdote. Segundo, o reajuste que deixara de fazer, ao abandonar o lar e se internar num convento, e que teria que ser completado. O fato, aparentemente bom, dele deixar a família e se dedicar ao claustro, absolutamente não compensou o fato mau do descumprimento da tarefa cármica junto aos pais. E isso também não invalidou sua ação, como sacerdote, pois a missão à qual se dedicou trouxe-lhe a evolução e a Luz. De qualquer forma, com a evolução e a Luz, sua responsabilidade junto à Lei Cármica permaneceu: “A Lei terá que ser cumprida até o último ceitil...”
- É, Neiva, é mesmo difícil a gente entender os meandros da vida espiritual!
- É por isso, Mário, que Jesus nos diz, taxativamente, que não devemos julgar. O nosso julgamento é limitado pela nossa razão e pelo que enxergamos no plano físico. O ser encarnado, porém, está vivendo vários planos simultaneamente: os do seu passado e os do passado dos que o cercam.
- Mas, Neiva, como a gente pode viver sem julgar? Como podemos tomar decisões a respeito de nossos negócios, nossos amores, nossas obrigações, sem julgar as pessoas com quem somos obrigados a entrar em relações?
- Mário, o nosso juízo, as idéias que fazemos a respeito das pessoas, têm que ter a flexibilidade necessária. Devemos aceitar as pessoas como elas são, e não segundo um juízo nosso. Se tomarmos em conta o amor, a tolerância e a humildade, dificilmente iremos cometer erros de julgamento. Os erros maiores nós cometemos quando julgamos com ódio, rancor, preconceitos e egoísmo. Percebe, Mário, a validade do Evangelho? Mas voltemos ao cemitério.
Ali estava eu, na companhia desse maravilhoso espírito que é Pai João, mas, ao mesmo tempo, me acabando de medo. Não era só o caso do frade e de seu pai que eu via, mas inúmeros outros dramas. Ainda preocupada com o pobre frade, perguntei a Pai João:
         - Esse sacerdote, meu pai, está num plano melhor que o meu?
         - Sim, filha. Você ainda é uma simples clarividente, enquanto ele já completou o seu tempo, com renúncia e humildade.
         - Mas, Pai João, eu também já renunciei a muita coisa!
         - Sim, filha, você renunciou por medo dos espíritos fora da matéria. Não se apresse, filha! Continue na sua missão, não cometa erros contra a Lei do Senhor, e um dia chegará ao plano onde está esse frade. Se você continuar no bom caminho, não terá necessidade de passar por aqui, como esses espíritos que aqui estão.
         Nisso, para minha surpresa, surgiu o espírito de Marcondes, dirigindo-se para nós, embora ele não visse Pai João. Ao chegar junto a mim, falou emocionado:
         - Tia Neiva, minha santa! Que bom encontrá-la aqui! Oh, Tia Neiva! Armanda e Waldo me decepcionaram, apesar de tudo que a senhora disse a ele. Perdoe-me, tiazinha, não pude resistir. Joguei meu carro num barranco, bem na entrada da nossa mansão.
         - Meu Deus, meu Pai João, outro suicida!...
         - Sim, Neiva, – falou Pai João – outro suicida que irá ficar aqui muito tempo. Armanda e Waldo formaram uma corrente tão negativa que Marcondes não resistiu. Suicidou-se, embora o caso tenha sido considerado como acidente. Esse foi mais um caso de suicídio que passou como sendo um simples acidente. Assim, há, também, acidentes que passam como sendo suicídios. Percebe, agora, o cuidado que se deve ter com relação a isso?
         Percebi que os mortinhos começavam a formar um semicírculo em torno do local em que estávamos. Pai João permanecia calmo e tranqüilo. Quando comecei a comentar a respeito da beleza daquele cemitério, Pai João me chamou a atenção para o que estava se passando. Pude ver, então, um centurião romano, que empunhava um grande chicote fluídico. Dizia lindas palavras em nome de Deus, enquanto seu chicote zunia por entre as sepulturas. Para minha surpresa, vi que muitos espíritos saiam das covas e vinham sentar-se, humildemente, em torno de Pai João. O espetáculo era tão triste, que tive vontade de fugir dali. Pai João me olhou com tanta serenidade, que me acalmei. Ele começou a falar, e seu sermão era tão lindo que me esqueci até de onde me encontrava. Enquanto ele falava, iam se clareando e se desprendendo daquele plano, subindo como se fossem flocos flutuantes. Foi um quadro inesquecível. Logo que ele terminou de falar, comecei a fazer perguntas:
         - Por que aquele chicote, meu Pai?
         - Com ele o Centurião coletou todo o ectoplasma do ambiente e, ao mesmo tempo, obrigou os espíritos, que se enterraram junto com os seus cadáveres, a sair.
         - Espíritos enterrados? – perguntei espantado.
         - Sim, Mário, espíritos acrisolados na matéria estacionada, pessoas que morrem não acreditando na vida do espírito, julgam-se enterrados e sua mente obscurecida não percebe o fato de sua existência independente do corpo apodrecido. Todos os dias, os espíritos guardiães, esses benditos missionários dos cemitérios, fazem esse trabalho. Com os chicotes fluídicos reúnem o ectoplasma e impregnam esses espíritos. Assim “encharcados”, eles começam a perceber sua verdadeira situação, e podem entender a doutrina de Pai João. Os que vão ganhando compreensão, vão sendo encaminhados para as Escolas do Espaço, onde são feitos os cartilhamentos de seus destinos. Outra coisa, Mário, que Pai João me explicou: Enquanto brandia seu chicote, o Centurião emitia um silvo agudo, cuja tonalidade despertava as mentes obstruídas. O som, como você sabe, tem uma importante função iniciática.
         - Aproveitando o ensejo, Neiva, explique-me esse negócio de fantasmas à meia-noite. É verdade que os espíritos saem, para fazer suas estrepolias, nessa hora?
         - Não. Ocorre exatamente o contrário, sendo esse trabalho executado depois da meia-noite, para aproveitar a situação da distância da luz solar, pois os ions do Sol não o permitiriam. Além disso, as atividades dos encarnados também o atrapalhariam. Por outro lado, durante o dia, muitos dos espíritos que ali vivem, saem e andam, indo para junto de seus familiares. À noite, voltam, pois consideram sua residência o local onde está o corpo. Seus Mentores os guiam de volta, cuidando para que, na hora propícia, estejam ali para o tratamento. A lenda da meia-noite talvez se prenda a essa movimentação, pois são muitos os médiuns videntes que ignoram essa situação, e podem ver espíritos caminhando e toda a movimentação nos cemitérios, dando origem a inúmeras estórias de horror. Há outro fato que merece atenção: esse trabalho no cemitério não é tão simples como parece. Imagine a quantidade de espíritos em conflito com os sepultos, e também a ação de exus, como a falange de Omolu, que trabalha com o ectoplasma dos defuntos, além de muitos macumbeiros que realizam seus trabalhos aproveitando as energias ali concentradas. Enfim, toda essa movimentação, esse comércio com o mundo dos mortos! É isso, Mário, essa vida do submundo da mediunidade, que confunde as pessoas e as levam a considerar o Espiritismo como coisa dos mortos e do Diabo. Na verdade, como sempre digo, tudo tem sua razão de ser, sua utilidade. Só não devemos confundir um aspecto da vida fora da matéria, com todo esse maravilhoso conjunto da Criação. Seria como se confundir as usinas de tratamento de lixo, os matadouros, as malocas e as invasões de terra como sendo a cidade, o povo!
         Tia Neiva continuou sua narrativa:
         Estava ainda assistindo àquele belo espetáculo, porém já pensando em voltar ao meu corpo, quando avistei uma luz que se aproximava de nós, e vi que era o frade. Não sei explicar porque, mas senti uma grande alegria no coração. Ele se dirigiu a mim, sorridente, e disse:
         - Filha, sou frei Juvêncio, e hoje recebi minha libertação! Estou seguindo para Deus. Não sei o que me espera, mas o que vier será bom! O que Ele me der, aceitarei feliz!
         - É, – disse eu – o senhor sofreu muito, não é verdade?
         - Sim, filha, sofri, mas foi uma experiência edificante. Tive não só que evoluir meu pai, mas, também, corrigir os erros que cometi.
         Disse isso e se aprestou para partir. Pude, então, ver que o pai suicida também se movimentava, e percebi que seu corpo apresentava uma porção de pingos de luz. Intrigada com aquilo, perguntei a Pai João o que eram aqueles pingos.
         - Aquilo, minha filha, são as gotas de óleos santos e água benta que o frade empregou no seu pai, quando lhe deu a absolvição. Sim, filha, aquela matéria impregnada com os fluídos do frade é que lhe dão esse aspecto de pingos de luz. Você vê, portanto, minha filha, que tudo são valores aproveitados pela misericórdia divina. Sim, filha, nada se perde em Seu Santo Nome.
         Em seguida, Pai João me pediu que fizesse uma prece, pois ainda tinha algo a me mostrar. Logo que me preparei, encaminhamo-nos para uma capela, onde se processava o velório de um recém-desencarnado. Ali estava o ataúde, com o corpo de uma jovem, rodeado pela família, que chorava sua morte. Um rapaz – que podia ser um noivo ou, talvez, um irmão da jovem – debruçado sobre o cadáver, chorava com desespero. Procurei o espírito da moça, mas não pude vê-lo por ali. Pai João me disse que ali só estava o cadáver, tendo o espírito já partido.
         - Como, Pai João, o espírito não veio com o cadáver?
         É que essa moça era espírita, e soube se preparar para seu desencarne. Terminadas as vinte e quatro horas normais, em que o espírito absorve o charme de seu corpo físico, ela foi encaminhada para Pedra Branca, e não mais voltará para cá...