A PORTA DO CÉU




A PORTA DO CÉU

Extraido do livro sob os olhos da Clarividente

Seis de janeiro de 1960. O planalto chamado Serra do Ouro reverberava ao sol das quatro da tarde. A pequena comunidade chamada UESB (União Espiritualista Seta Branca) ocupava, com seus ranchos de palha, uma estreita faixa de terra, comprimida entre a grande curva de asfalto e o abrupto de um vale do chão do cerrado. Apenas meio alqueire de terra. A água, inexistente na aridez do chão do cerrado, era buscada no fundo do vale. Uma pequena elevação, chamada pelos ciganos da UESB de “o morro”, formava a barreira entre o plano e o abismo.
Pessoas se movimentavam na azáfama do trabalho contínuo. Doentes em tratamento, débeis mentais vigiados no terreno sem clausura, o Templo em trabalho mediúnico constante. Grandiosidade espiritual em meio à pobreza humana.
A Clarividente Neiva sentia a nostalgia de planos mais estéticos. Sua missão era uma perene provação. Sua vida entre dois planos, um constante desafio. Num átimo de segundo, seus olhos se colocavam na suavidade dos planos astrais, mundos de formas diáfanas e de espíritos luminosos, cores suaves e ausência da animalidade do plano físico. Palavras carinhosas de incentivo e seres amorosos. Nisso residia sua principal virtude.
Poder ver, sentir e participar daqueles céus, mas estar presa naquele pedaço de chão, em que a miséria humana se concentrava. Esse o fato que a diferenciava de seus irmãos: viver simultaneamente no Céu e na Terra, em plena consciência.
O fato em si é comum a todos os seres humanos. Todos nós vivemos simultaneamente em vários planos, porém não temos consciência disso. Um hábil mecanismo da natureza conserva a memória em compartimentos separados. O máximo que conseguimos é a memória deformada dos nossos sonhos e dos nossos devaneios. O tributo que pagamos pelo nosso curso na Terra é a inconsciência de nós mesmos. Raramente nós tomamos conhecimento dos mundos maravilhosos a que pertencemos. Ou dos mundos tenebrosos!...
Apenas os artistas, os místicos e os cientistas têm esse privilégio embora com muita precariedade. Toda a história de criatividade humana se deve a esse fato. Esse é o segredo do gênio. Essa inconsciência, porém, é a grande maravilha da sabedoria sideral. Se soubéssemos o que fazemos e vivemos fora do corpo físico, não teríamos capacidade de sobrevivência na Terra. Mas, por essa mesma sabedoria, nós sentimos a saudade desses mundos, ansiamos por algo a conseguir, algum lugar onde ir, e isso nos impulsiona a viver, a buscar. Nosso veículo é a partícula de consciência que nos proporcionam os sentidos. Mas é um veículo da Terra, que só funciona na horizontal. Somos formigas a caminhar sem parar e, às vezes, sonhamos com o mundo fora do nosso formigueiro.
Neiva ainda estava no começo de sua missão. Da vida agressiva de motorista de caminhão, depois de ter viajado pelas piores estradas do País, passara para a vida de missionária do Cristo, compelida a cuidar dos seus irmãos desafortunados. Sua rústica simplicidade não lhe permitia os vôos da imaginação, tão caros aos bem dotados do intelecto. Apenas seu coração se impregnava do amor e do desvelo dos seus Guias e, com isso, amava todos, indiscriminadamente. Raramente podia se dar ao luxo de ficar só. Em torno dela sempre havia um sem número de solicitações – uma lâmpada acesa, rodeada de mariposas! Naquela tarde, porém, algo de estranho se passou. Ela começou a sentir saudade do seu Jangadeiro, um ser de outro planeta que estava exilado na Terra.
O Jangadeiro era uma das maravilhas didáticas dos Mentores de Neiva. Morava ele numa enseada do Atlântico, e se apresentava como oficial aposentado na Marinha Mercante. Vivia numa cabana rústica e possuía possante barco, que Neiva, confundida, chamava de jangada. Suas atividades eram tão misteriosas como sua vida. A princípio, Neiva pensava ser ele um contrabandista.
No começo da sua missão, na sua ira contra a interferência dos espíritos em sua vida, Neiva duvidava de tudo e reagia contra a sua própria vidência. Isso era agravado pela sua solidão de viúva jovem. Na verdade, não tinha com quem se desabafar e a aparente compreensão dos que a cercavam a irritava mais. É fácil de compreender. Aquelas criaturas simples, sem o lastro de uma cultura intelectual, com base, apenas, nos alfarrábios espíritas, deveriam ser mesmo desagradáveis para quem, como Neiva, estava vivendo tremendas experiências com as outras dimensões.
O Jangadeiro era seu consolo, sua válvula de escape. Mediante o expediente simples do transporte mediúnico, ela ia até ele. Algumas vezes, raramente, ele vinha até ela. Relativamente materializada, ela conversava longamente com ele. Nas noites de Lua cheia, ele a levava no seu barco e é fácil imaginar o encanto desses passeios. Ele era um emissário dos planos superiores e a instruía. Ambos, porém, viviam na precariedade do mundo físico, e o Jangadeiro também se abria e se queixava da sua solidão.
Admirável trabalho esse! Espíritos de muita hierarquia a se ajudarem no mundo inóspito da matéria densa. Essa forma de relacionamento tocava no romantismo da jovem Neiva e fez com que aceitasse melhor sua missão. Por isso, quando as dores da missão se agravavam, Neiva buscava o Jangadeiro.
Nessa tarde, ao sentir um impulso misterioso, pensara em ir até ele. A única coisa que não estava certa era a hora, pois suas visitas geralmente eram feitas de madrugada, quando seu corpo dormia. Sem saber bem o que se passava, desligou-se gentilmente dos que a assediavam e, fugindo da vigilância de seus mentores terrenos, subiu para o morro.
O céu estava limpo e ventava ligeiramente. Deitou-se na relva úmida da estação chuvosa e quedou-se a olhar, apreensiva, para o céu. Começou a sentir ligeira tontura e a sensação de flutuar. Sentiu medo, e suas mãos crisparam-se na grama, tentando segurar-se na Terra. Os seixos e a grama, seguros em suas mãos fechadas, eram sua garantia de que estava na Terra. Mas, ao mesmo tempo, encontrou-se numa enorme e escura gruta. No fundo, onde havia uma suave claridade, ela divisou uma imensa campina, cuja relva formava suntuoso tapete. Havia muitas árvores que se destacavam por sua simetria em forma de triângulo. Em vez da luz solar, a paisagem era iluminada por luzes coloridas, que se alternavam suavemente, desde o violeta até o alaranjado. O alaranjado demorou mais que as outras cores e, gradativamente, aquela bela e misteriosa paisagem comunicou, aos sentidos alertas de Neiva, a sensação de deserto, de abandono!
Subitamente, como se estivessem mesclados com alguma árvore, surgiu um casal de seres estranhos! A mulher estava vestida com um traje verde, coberto com um manto de tecido parecido com tule, da mesma cor do vestido. Esse manto esvoaçava, como se fosse impulsionado pelo vento, mas o sentido mediúnico de Neiva lhe dizia que não era vento, mas, sim, a vibratilidade da mulher. Chamava a atenção, também, sua suave sensualidade.
O homem, pouco mais alto do que ela, vestia um conjunto verde escuro, parecido com veludo, com ornamentos dourados, que Neiva não conseguia decifrar.
O casal conversava, como se ignorasse que estava sendo observado, e Neiva captava, apenas, poucas palavras.
- Santuir – dizia a mulher – temo que ainda não seja tempo, pois a Terra ainda vive sua evolução...
Neiva começou a se preocupar com o fenômeno, totalmente alheio à sua experiência. Sentia a terra, o céu, os seixos e a relva nas mãos fechadas, ouvia as vozes abafadas pela pequena distância dos habitações, mas, ao mesmo tempo, sentia desejo de intensificar aquela visão. Nisso, ouviu alguém chamá-la e, ao contrário do que seria de esperar, o fenômeno se intensificou.
Quem chamava era Mãe Neném, a Presidente da UESB, e que acompanhava Neiva nas suas primeiras experiências mediúnicas.
- Neiva, – dizia ela – o que você está fazendo aqui sozinha? Você não sabe que não pode ficar só?
Chegou mais perto de Neiva e notou que algo estranho se passava.
- Neiva, o que você tem? – seu tom era de aflição – Você desmaiou?
Neiva, com medo de preocupá-la, respondeu, tentando explicar o que estava vendo e ouvindo. Sua reação, porém, foi em tom de reprimenda, e ela verberou Neiva pela sua indisciplina. Neiva sorriu, para tranqüiliza-la, porém percebeu que tinha dificuldade em falar.
Tomando ar professoral, Mãe Neném apressou-se a dizer que aquilo tinha sido, apenas, um duplo transporte. Perguntou a Neiva se ela continuava ouvindo as vozes e, diante da afirmativa, fê-la levantar-se e ambas se encaminharam para o centro da comunidade.
Com o coração palpitante de emoção, Neiva deitou um último olhar para o casal e se reintegrou na vida banal da UESB.